Quando Naomi desceu para tomar o pequeno-almoço, o pai já estava à mesa. Embora tenha uma tigela de muesli à frente, a sua atenção concentra-se numas folhas dactilografadas que estão sobre a mesa, ao seu lado. Para Naomi, o único aspecto bizarro desta cena é a intensidade com que o pai franze o sobrolho. Enche a sua própria tigela com muesli, cobre os cereais com leite de soja e quebra o silêncio: — Deixe-me adivinhar... É um trabalho daquele estudante que se licenciou em estudos culturais antes de se virar para a filosofia? — Não. É pior. Não o trabalho em si — esse é bastante interessante. Mas é um problema maior para mim. — Qual? — Sabes que vou no próximo mês a Princeton, responder àquele romancista sul-africano, J. M. Coetzee, que vai proferir uma comunicação especial acerca da filosofia e dos animais? Esta é a sua comunicação. Só que não é propriamente uma comunicação. É um relato ficcional de uma romancista chamada Costello que dá uma conferência numa universidade americana. — Quer dizer que ele vai estar lá a dar uma conferência sobre alguém que dá uma conferência? Très post-moderne. — O que há de pós-moderno nisto? — Oh, papá, onde é que andaste na década passada? Sabes, Braudillard e toda a história de simulação, de desmontar a distinção entre realidade e representação, e por aí fora? E vê só todas as oportunidades de jogar com a auto-referência... — Chama-me antiquado, então, mas prefiro manter a verdade e a ficção claramente separadas. Tudo o que quero saber é: como é que devo responder a isto? — Afinal o que diz essa Costello ficcional sobre os animais? — Ela está do lado certo, não há dúvidas quanto a isso. É vegetariana. Mostra quão limitadas e restritivas têm sido algumas investigações científicas famosas acerca das mentes dos símios. E há passagens muito fortes que comparam o que estamos a fazer aos animais com o Holocausto. — Oh, isso é matéria sensível! Eu não identificaria o que os nazis fizeram aos nossos avós com o que a maior parte das pessoas faz hoje aos animais. — Nem eu. Mas uma comparação não é necessariamente uma identificação. Isaac Bashevis Singer pôs uma das suas personagens a comparar o comportamento humano para com os animais com o comportamento dos nazis para com os judeus. Ele não diz que os crimes são igualmente maus, mas que ambos se baseiam num princípio de que o poder tem razão e os fortes podem fazer o que quiserem com aqueles que se encontram sob o seu domínio. — Esse é mesmo um exemplo específico do paralelo entre racismo e especismo que estás sempre a estabelecer. É só isso que Coetzee faz com a comparação com o Holocausto? — Costello, queres tu dizer. Não. Ela diz também algo sobre o modo como muitas pessoas preferem não pensar demasiado acerca do que se está a fazer àqueles que se encontram no exterior da esfera do grupo favorecido, do modo como evitamos as coisas que nos poderiam perturbar e olhamos para o outro lado quando o mal está a ser feito. Mas creio que ela iria mais longe do que isso. Há um igualitarismo entre os humanos e os animais que percorre a sua comunicação e que é mais radical do que aquele que eu estaria preparado para defender. — Um igualitarismo mais radical? — Naomi ergue o sobrolho, põe mais muesli na tigela e continua: — Não foste tu que escreveste um livro cujo primeiro capítulo tem como título «Todos os animais são iguais»? — Não creio que o tenhas lido. — Por que precisaria de o ler? Estás sempre a falar-me dele. E parece que estou para apanhar outra injecção. Mas, em tempos, li até à primeira página do primeiro capítulo. — Vê-se. Bem, mas quando eu digo que todos os animais — todas as criaturas sencientes — são iguais, quero dizer que elas têm direito a um reconhecimento igual dos seus interesses, sejam eles quais forem. Dor é dor, independentemente da espécie a que pertence o ser que a sente. Mas eu não digo que todos os animais têm os mesmos interesses. A filiação numa espécie pode indicar aspectos moralmente significativos. Por exemplo, no que toca ao carácter errado de tirar a vida, sempre afirmei que há diferentes capacidades relevantes na avaliação do erro de matar. — Que alívio. Quando era pequena, costumava interrogar-me sobre quem o pai escolheria salvar, se a casa se incendiasse: eu ou Max. Max parecia dormitar no seu tapete mas, ao ouvir o som do seu nome, ergueu a cabeça e olhou em volta, expectante. Peter ajoelha junto ao cão e afaga-lhe o pescoço. — Desculpa, Max, mas terias de te safar por ti. Vês, mesmo quando a Naomi era pequena, ela conseguia interrogar-se sobre quem salvaria eu primeiro. Tu nunca pensaste nisso, pois não? E Naomi estava sempre a conversar sobre o que seria quando crescesse. Tenho a certeza de que tu não pensas no que farás no próximo Verão, nem mesmo na próxima semana. — E isso faz diferença? — foi Naomi quem respondeu, e não Max. — E então antes de eu ser suficientemente grande para pensar no que quereria ser quando crescesse? Terias mandado uma moeda ao ar: cara — salvo a Naomi; coroa — salvo o Max? — Não, tonta. Sou teu pai, claro que salvaria a minha querida bebé. Mas o principal é perceber que os humanos têm capacidades que ultrapassam de longe as dos animais não humanos, e algumas dessas capacidades são moralmente significativas em contextos específicos. Olha para ti. Ficaste acordada ontem até tarde, a trabalhar no teu projecto de investigação, que tens de entregar no próximo de mês. O tema já deixou de te entusiasmar há muito tempo, mas estás a terminar o trabalho para poderes obter a licenciatura e, se tiveres sorte, utilizá-la para conseguir um emprego a fazer algo de útil para o ambiente. Toda a tua vida está orientada para o futuro, de uma forma que é inconcebível para o Max. Isso faz com que tenhas muito mais a perder e dá uma razão objectiva a qualquer pessoa — e não apenas ao teu pai — para te salvar em vez de salvar o Max, se a casa se incendiasse. — E não é isso também especista? Não estás a dizer que estas características — ter consciência de si mesmo, planear o futuro, etc. — são aquelas que os humanos têm e, portanto, são mais valiosas do que quaisquer características que os animais tenham? O Max tem melhor olfacto do que eu. Por que não é essa uma razão objectiva para o salvar a ele, e não a mim? — Enquanto Max estiver vivo, quanto mais felizes cheiradelas ele conseguir dar, melhor. Mas pergunta-te de que forma a morte — mesmo supondo que é indolor, não antecipada, sem medos anteriores... Naomi interrompe-o. — Então não estás a falar do que sucede nos matadouros, pois não? Acabaste de excluir a esmagadora maioria das mortes que os humanos infligem aos animais. Esta discussão está a tornar-se puramente teórica. — Não puramente. Deixa-me terminar. Diz-me tu: por que é errada a morte indolor e não antecipada? — Significa a perda de tudo. Se o Max fosse morto, não haveria mais cão alegre a dar-me as boas-vindas quando chego, a ser levado a passear, a roer o osso... — Não haveria nada disso para o Max, é verdade. Mas há imensos canicultores que criam os cães suficientes para satisfazer a procura. Portanto, se lhes adquiríssemos outro cachorro, fazendo, assim, existir outro cão, tornaria a haver todos estes aspectos positivos da existência canina. — O que estás a dizer? Que poderíamos matar o Max de forma indolor, conseguir outro cachorro para o substituir e tudo ficaria bem? Realmente, papá, às vezes deixas que a filosofia te leve longe de mais. Demasiado raciocínio, sentimento insuficiente. Isso é um pensamento horrível. Naomi fica tão perturbada que Max, que até então estivera a ouvir atentamente a conversa, levantou-se bruscamente do seu tapete, foi até junto dela e começou a lamber-lhe consoladoramente os pés descalços. — Sabes muito bem que eu gosto do Max, portanto deixa-te de tretas do género «raciocinas, logo, não sentes», por favor. Sinto, mas também penso sobre o que sinto. Quando as pessoas dizem que deveríamos apenas sentir — e, por vezes, Costello aproxima-se desta perspectiva na sua comunicação — lembro-me de Göring, que disse: «Penso com o meu sangue». Vê aonde isso o levou. Não podemos tomar os nossos sentimentos como dados morais, imunes à crítica racional. Mas, para regressar à questão, não pretendo dizer que tudo estaria bem se o Max fosse morto e substituído por um cachorro. Nós adoramos o Max, e, para nós, nenhum cachorro o poderia substituir. Mas eu perguntei-te por que razão a morte indolor era errada, em si. O nosso desgosto é um efeito secundário da morte, e não algo que a torne errada. Deixemos o Max fora da história, uma vez que a menção do seu nome parece excitá-lo e desgostar-te. Houve alguém que disse que os porcos têm de dar graças por a maior parte das pessoas não ser judaica, pois, se assim fosse, nem haveria porcos sequer... Naomi interrompe-o de novo. — Os porcos que estão nas explorações pecuárias intensivas não têm de agradecer a ninguém a sua existência miserável, presos entre paredes de cimento para o resto da sua vida. Estariam melhor se não existissem. — Sabes muito bem que não defendo que se coma porco. Estou apenas a tentar apresentar um argumento filosófico. Suponhamos que os porcos têm uma vida feliz e, depois, são mortos de forma indolor. Por cada porco feliz morto cria-se um outro, que levará, também, uma existência feliz. Assim, matar o porco não reduz a quantidade total de felicidade suína no mundo. O que há de errado nisto? Naomi fica uns momentos em silêncio. — Mesmo assim, estás a matar animais com necessidades próprias. Os porcos são tão inteligentes como os cães. E eu sei quando o Max está à espera de ser levado a passear. Mesmo que ele não planeie o que fará na próxima semana, a verdade é que tem necessidades e desejos a curto prazo. Aposto que os porcos também. Portanto, estamos a agir incorrectamente para com eles ao pormos fim às suas vidas, e não nos redimimos ao darmos vida a outro cão ou porco. Peter sorri, triunfante. — Ah, mas agora estás a dar-me razão. Apenas discordamos quanto aos factos da vida suína e canina. E talvez eu nem discorde realmente de ti a esse respeito. Supõe que eu reconheço que os porcos e os cães têm um certo grau de consciência de si e têm pensamentos acerca de coisas futuras. Isso forneceria alguma razão para se pensar que a sua morte é intrinsecamente errada – não absolutamente errada, mas talvez um erro bastante sério. Mas há outros animais – talvez as galinhas ou os peixes – que podem sentir dor mas não têm qualquer consciência de si próprios ou capacidade para pensar sobre o futuro. Relativamente a esses animais, não me deste qualquer razão por que seria errado matá-los, se houvesse outros animais que tomassem o seu lugar e tivessem uma vida igualmente agradável. Naomi tinha terminado o seu pequeno-almoço e afastado Max de junto dos seus pés. Calça as suas botas Doc Martens, que não são de cabedal. Falar com o seu pai sobre filosofia acaba sempre por fazê-lo adoptar o registo professoral. Em breve ela poderá safar-se. Mas não quer ser mal-educada e, por isso, pergunta: — E Coetzee não concorda com isso? — Pelo menos Costello não concorda. Fala sobre a essência dos morcegos e dos humanos, ambas essências completas, e parece dizer que a totalidade da essência é mais importante do que a essência do morcego ou do humano. — Percebo onde ela quer chegar. Quando se mata um morcego, elimina-se tudo o que o morcego tem, a sua existência completa. A morte de um ser humano não pode ser mais do que isso. — Pode, sim. Se eu despejar o resto do leite de soja no lava-louça, esvazio o pacote, e se fizer o mesmo àquela garrafa de Kahlúa que tu e os teus amigos tanto gostam de beber quando nós não estamos, sucede o mesmo. Mas tu ficarás mais aborrecida com a perda do conteúdo da garrafa de Kahlúa. O valor que se perde quando algo é esvaziado depende daquilo que lá estava antes, e há mais na existência humana do que na existência de um morcego. — Oh, não pensei que tivesses visto a garrafa de Kahlúa – diz Naomi, baixinho. Mas o seu pai já tinha pegado outra vez nas folhas e passava uma vista de olhos pelas páginas. — Esse não é o pior argumento. Ouve isto. Costello está a falar de um livro que escreveu, no qual se julga encarnar a personagem de Joyce, Marion Bloom, e diz: Se consigo imaginar-me no interior da existência de um ser que nunca existiu, posso imaginar-me na essência de um morcego ou um chimpanzé ou uma ostra, de qualquer ser com quem partilhe o substrato da vida. Naomi está contente por abandonar o tema da Kahlúa. — Não é preciso ser-se filósofo para se saber o que está mal nisso. O facto de uma personagem não existir não torna difícil imaginar-nos na pele dessa personagem. Pode imaginar-se alguém muito parecido connosco ou com alguém que conheçamos. Depois, é fácil imaginar-nos na existência dessa pessoa. Mas um morcego, ou uma ostra? Quem sabe? Se esse é o melhor argumento que Coetzee consegue arranjar a favor do seu igualitarismo radical, não terás problemas em mostrar a sua debilidade. — Mas serão estes os argumentos de Coetzee? Aí é que bate o ponto – é por isso que não sei como responder a esta chamada conferência. São os argumentos de Costello. O instrumento ficcional de Coetzee permite-lhe distanciar-se deles. E há uma personagem, a nora de Costello, chamada Norma, que levanta todas as objecções óbvias àquilo que Costello vai dizendo. É um instrumento maravilhoso, na verdade. Costello pode criticar alegremente a utilização da razão, ou a necessidade de ter quaisquer princípios ou proibições claros, sem o próprio Coetzee se comprometer com essas afirmações. Talvez ele partilhe das dúvidas muito acertadas de Norma. Coetzee nem precisa de se preocupar muito com a correcção da estrutura da comunicação. Quando se apercebe de que está a devanear, limita-se a fazer Norma dizer que Costello está a devanear! — Bastante astucioso. Não é fácil responder a isso. Mas porque não tentas usar o mesmo truque na resposta? — Eu? E eu alguma vez escrevi ficção?
Peter SingerExcerto retirado de As Vidas dos Animais, de J. M. Coetzee (trad. de Maria de Fátima St. Aubyn, Temas e Debates, 2000)
Fonte: CEDA – Centro de Ética e Direito dos Animais
|