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Corridas de cavalos: O entretenimento que mata PDF Imprimir E-mail
Publicado em 14.02.2006


A associação britânica Animal Aid conduziu um estudo sobre as mortes de cavalos ocorridas no Reino Unido em circunstâncias de entretenimento para humanos, ou seja, durante provas de velocidade e provas de obstáculos.

A investigação foi levada a cabo através da análise de dados oficiais ao longo de mais de seis meses, do escrutínio presencial de quatro épocas de eventos equestres e da análise de emissões televisivas de milhares de corridas de cavalos. Estes dados oficiais existiam antes com grande pormenor e eram publicados regularmente, explicitando o número de animais que morriam durante as corridas, os que eram mortos devido a ferimentos, acidentes de treino ou por não serem úteis aos seus proprietários.

Actualmente, este tipo de fontes já não existe e a Animal Aid teve que recorrer a uma das únicas publicações que ainda regista aquele tipo de estatísticas. Trata-se de um anuário que é utilizado, principalmente, para efeitos de apostas, pelo que, apesar dos relatórios aí constantes serem avaliações correctamente elaboradas, os seus autores não estão encarregados de investigar o destino de cada um dos cavalos mortos.


A indústria equestre
A indústria das corridas de cavalos pretende transmitir uma imagem do cavalo de corrida em que este é um animal amado, mas esconde do público em geral os terríveis desafios por que os equinos são obrigados a passar. O organismo que regulamenta a actividade das corridas de cavalos no Reino Unido denominava-se The Jockey Club e, em 2005, passou a designar-se Horseracing Regulatory Authority. É responsável por supervisionar os aspectos chave deste negócio.

Image A Animal Aid requisitou a este organismo, formalmente, o fornecimento de informação sobre a morte de cavalos, mas não recebeu qualquer resposta. No entanto, não foi difícil encontrar garantias por parte da organização de que desempenha um importante papel no bem-estar dos cavalos explorados em corridas. Estas garantias foram desmontadas pela Animal Aid, que constatou que, de 2000 a 2005, não ocorreram quaisquer melhorias na lamentável taxa de morte e ferimentos de cavalos de corrida.


No site da Horseracing Regulatory Authority, podia ler-se a seguinte citação: «Nenhuma questão tem mais prioridade para o Jockey Club do que a segurança e bem-estar do cavalo». No mesmo sítio da Internet, o organismo referia alguns estudos sobre factores de risco associados aos ferimentos de cavalos e suas mortes, mas nenhuma das investigações estava completa e patente no site. A entidade não desenvolveu, na realidade, quaisquer esforços no sentido de abordar causas conhecidas e evitáveis de ferimentos e mortes de animais.


A criação de cavalos de corrida
O abuso aos animais começa durante as operações de compra e venda e depois nas duras exigências do processo de treino. Sabe-se que os animais sofrem na sua estreia nas pistas de corrida e, depois, com as exigências da performance contínua ao longo dos anos, sendo o seu fim – com sorte – um encontro com o matadouro.

Os animais que são seleccionados para procriarem são drogados, privados da luz do dia natural e obrigados a percorrer longas distâncias, muitas vezes atravessando oceanos, apenas para acasalarem com este ou aquele parceiro mais receptivo. De facto, a indústria das corridas de cavalos é, actualmente, fomentada por esta actividade de criação de cavalos de raça.

A fome de lucros resultou na produção em massa de cavalos que, só na Inglaterra e no Reino Unido, implica o nascimento de 16 mil animais, anualmente. Cerca de um terço deste número poderá, eventualmente, chegar às pistas de corrida. Os restantes são abatidos para o fabrico de alimento para animais de estimação, abatidos para o consumo por parte de cães de caça, usados noutros eventos equestres ou vendidos de proprietário em proprietário, vítimas da mais flagrante negligência.

Numa única época, um garanhão pode ser usado para emprenhar cem éguas. Os cavalos que daí nascerem passam a ser encarados como possíveis reprodutores de outros cavalos de corrida e os proprietários fazem contas para determinar a melhor maneira de lucrar com os animais, mantendo o seu estatuto e incentivando a continuação destes ciclos de reprodução.

Esta criação em massa de cavalos de corrida é dominada por uma mão cheia de empresas financeiramente poderosas e também pelas televisões, que ganham importantes quantias com a transmissão de eventos equestres.


O desenvolvimento dos cavalos
O desenvolvimento do cavalo leva cinco anos, desde o seu nascimento à maturidade. A forma e estrutura do corpo atravessam diversas mudanças durante este período, existindo animais mais ou menos vulneráveis em diferentes alturas, em termos do desenvolvimento ósseo e de cartilagens. Entre os problemas apresentados aos cavalos de corrida dos tempos modernos está precisamente o facto destas particularidades dos animais não serem levadas em conta.

Além disso, a falta de diversidade genética na criação de cavalos conduziu ao aumento de problemas de saúde. Os animais estão claramente a perder força óssea em favor da capacidade de serem velozes, um facto que se verifica através do crescente número de animais que morrem nas pistas de corridas. Image

A maior parte dos cavalos de corrida nascem entre Janeiro e Junho, mas a todos é dada a data oficial de nascimento de 1 de Janeiro do ano seguinte. Podem começar a participar em corridas a partir do mês de Março seguinte ao seu segundo aniversário, apesar de, individualmente, cada cavalo ter o seu próprio ritmo de desenvolvimento.

Durante os primeiros anos de participação em eventos equestres, é exigido aos cavalos que apresentem uma performance constante, o que, na opinião da Animal Aid, não é razoável. Os animais são sujeitos a um rigoroso regime de treino e as próprias exigências dos dias de corridas exercem, mais tarde ou mais cedo, consequências sobre o seu bem-estar.

A Animal Aid concluiu que dos 127 animais que morreram em eventos equestres, durante o ano 2000, um total de 76 eram cavalos com menos de cinco anos. Ataques cardíacos, quebras e fracturas de ossos foram as principais causas para o desaparecimento destes equinos.


Os números
Estimativas anteriores sugeriam que, no total, morrem, em média, 300 cavalos por ano em corridas, mas a nova investigação concluiu que esse número deverá andar mais perto dos 375. Os animais morrem de ferimentos sustidos durante as corridas ou são mortos por já não representarem valor comercial para os seus proprietários, mesmo que sejam animais jovens o suficiente para continuar a participar em corridas. A Animal Aid ressalva que, mesmo assim, o número oficial de mortes de cavalos não é realista, uma vez que a documentação que regista essas ocorrências não inclui todas as mortes relacionadas com as corridas.

Os cavalos morrem na sequência de pernas partidas, coluna partida, pescoço e pélvis partidos, ferimentos fatais na espinal medula, exaustão, ataque cardíaco e rebentamento de vasos sanguíneos nos pulmões. Em média, morre um cavalo de corrida por dia, no Reino Unido e a Horseracing Regulatory Authority sabe-o. Sabe também que os cavalos não têm escolha, que são obrigados a participar nas corridas e que os jóqueis os agridem, invariavelmente, para lhes pedir mais e mais velocidade.  Os circuitos de corridas mais perigosos para os cavalos são, na realidade, propriedade da Horseracing Regulatory Authority.

 ImageA estas fatalidades temos que acrescentar o número muito superior, mas não registado, de animais considerados “espécimes inferiores” e que são mortos todos os anos, ainda antes de terem sequer chegado a pisar uma pista de corridas. Há ainda os animais que são mortos no fim das suas carreiras de corredores, em vez de receberem a oportunidade de se reformarem condignamente. O número total de mortes de cavalos relacionadas com as corridas deverá ascender a vários milhares por ano.

Cerca de 30 por cento das 375 vítimas anuais dos percursos de corridas morrem durante os eventos, o que é preocupante, já que os 59 espaços britânicos de corridas de cavalos organizam, cada um, apenas 12 eventos por ano. Os restantes animais são mortos em consequência de ferimentos durante o treino ou por os seus proprietários, simplesmente, decidirem que as suas vidas já não valem a pena.

Todos os anos, são criados muitos mais cavalos de corrida do que o calendário de eventos equinos pode absorver. Por isso, os animais são, muitas vezes, sujeitos a participar em provas mal organizadas e que não dispõem das condições necessárias para albergar os cavalos participantes. O objectivo dos proprietários dos animais é recuperar o investimento realizado nos mesmos e, devido à falta de condições, a morte dos animais é frequente.

Não é raro acontecerem duas mortes num mesmo evento. Em 16 dias, de 9 de Março a 24 de Março de 2004, morreram exactamente 16 cavalos, mas não foi levada a cabo qualquer acção no sentido de investigar a situação, nem se registou qualquer resposta oficial à morte de outros dez animais em oito dias, durante o mês de Março de 2002.

O número crescente de cavalos criados todos os anos obriga proprietários e treinadores a inscreverem os seus animais em eventos sem condições. A televisão britânica já descreveu estes eventos como “corridas de almôndegas”, aludindo precisamente à falta de respeito pelos animais. Nalguns casos, os animais são obrigados a participar em corridas em que o prémio para o proprietário resulta da venda do cavalo; a constante participação em eventos deste género resulta na passagem do animal de proprietário em proprietário, conduzindo a sérios problemas de bem-estar.

O dinheiro que pode ser obtido através das corridas de cavalos, em prémios, varia substancialmente de evento para evento. Os eventos mais populares dão prémios mais avultados e é nestas pistas que correm os melhores cavalos; os cavalos com menos capacidades são obrigados a correr em pistas piores e, como os prémios são de menor valor, os seus proprietários forçam-nos a participar em mais eventos. Ou seja, são os cavalos em piores condições físicas que mais sofrem.


As provas de obstáculos
A maioria das fatalidades ocorre em provas de obstáculos. É que os cavalos, anteriormente, eram criados com características específicas para participarem neste tipo de eventos – tinham uma estrutura óssea mais pesada e eram mais robustos do que os animais dedicados a provas de velocidade. Todavia, a crescente ênfase colocada na velocidade em todos os sectores do desporto equestre levou a que se passassem a usar cavalos de provas de velocidade em provas de obstáculos, apesar de não estarem preparados para isso. Muitos morrem por isso.

O posicionamento favorável dos obstáculos é crucial para a segurança dos cavalos. De acordo com a Animal Aid, todavia, existem muitos obstáculos que são deliberadamente colocados em posições difíceis para complicar a vida a cavalos e jóqueis. Os obstáculos que causam maior número de mortes são os inclinados, devido ao impulso que os animais reúnem com a aproximação do obstáculo e à dificuldade que sentem em resistir à atracção gravitacional que torna o obstáculo difícil. Mesmo que consigam saltar, os cavalos podem, ainda, cair de cabeça.

Existem muitos eventos em que participam cavalos com quatro anos de idade, já que a indústria acredita que, quanto mais cedo um cavalo começa a saltar, melhor se tornará. Esta crença baseia-se em estudos de raças europeias de equinos, que são treinados de forma moderada. Os circuitos europeus não permitem a colocação de obstáculos propositadamente perigosos.  Image

Os obstáculos colocados demasiado perto do início do circuito podem também ser um problema, já que os cavalos de corrida são conhecidos pelo seu nervosismo. A Animal Aid constatou que as mortes neste tipo de corrida ocorrem, frequentemente, no início da corrida. O mesmo acontece no caso de obstáculos colocados demasiado próximos uns dos outros.

Outro problema que os cavalos de corrida enfrentam é a colocação de visores. É que os animais com visores correm em passo mais acelerado, talvez devido ao medo de não saber o que os rodeia, e, além disso, a visão obstruída pode ser-lhes fatal durante um salto. Os cavalos pagam ainda preços demasiado altos se chocarem contra obstáculos pouco maleáveis.


Conclusão
O estudo da Animal Aid conclui que a responsabilidade pelas mortes e ferimentos destes cavalos deve ser atribuída a proprietários, treinadores, jóqueis, ao próprio circuito de corridas, aos veterinários e à Horseracing Regulatory Authority.

Todas estas vítimas são indivíduos com direitos próprios. A utilização de cavalos em corridas é uma actividade exploratória que não respeita o animal que lhe fornece os lucros. Para a Animal Aid, trata-se de uma indústria que não merece o apoio generalizado de que goza e que deveria ser sujeita a regulamentações independentes e não provenientes de organismos nascidos da própria actividade, como é o caso da Horseracing Regulatory Authority.


Fonte: Animal Aid
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